Crime e Castigo

Posted on junho 24, 2010

3


Boa tarde gente. Hoje no Globo saiu um texto da autora Cora Rónai sobre o que aconteceu no Morro dos Cabritos, no Rio de Janeiro. Que soltaram um balão e em poucos minutos o morro todo pegou fogo. Achei o texto interessante e vou postar uma parte dele para vocês. Quem quiser o texto inteiro é só pegar o segundo caderno do Globo de hoje.

“Os bombeiros que apagaram o fogo no morro dos cabritos passaram o domingo trabalhando (…) Passei horas na janela admirando sua perícia e perdi a conta do número de vezes em que repetiram o procedimento. Enquanto o resto da cidade ficava assistindo o jogo do Brasil, eles davam um show de competência e dedicação. São os meus heróis.

Não tenho mais paciência com a tolerância políticamente correta que aceita qualquer estupidez que se apresente como ‘tradição cultural’. É como se a humanidade não evoluísse ou, pior, como se toda e qualquer evolução fosse algo suspeito e forçosamente inferior às genuinas manifestações das nossas almas primitivas. Agora mesmo acompanhamos a novela das vuvuzelas da copa, que acabaram não sendo proibidas na África do Sul porque são uma ‘tradição cultural’. E daí se a trilha sonora dos estádios perdeu a graça e em pluralidade, e daí se quem não sopra aquelas porcarias não suporta o seu barulho? Tasque-se o carimbo de ‘tradição cultural’ na pior imbecilidade e pronto, ela fica imediatamente acima do bem e do mal. Baloeiros se fazem de vítimas e posam de heróis na internet sob a alegação de que estão mantendo uma ‘tradição cultural’, enquanto florestas inteiras são queimadas no Nordeste — porque as fogueiras de São João são, igualmente, uma ‘tradição cultural’. E daí que as matas peguem fogo, que plantas e bichos desapareçam, que a devastação seja geral? A lei proíbe balões? Proíbe fogueiras em áreas urbanas? Dane-se a lei.

Claro que o prejuízo causado por uma vuvuzela ou por todo o enxame de vuvuzelas não se compara à destruição que pode vir no rastro de um balão ou de uma fogueira, mas, ainda que diferentes, essas pragas sobrevivem graças ao mesmo fenômeno. Simplesmente não temos mais coragem de apontar para alguma coisa e dizer que está errada. Touradas? ‘tradição cultural’. Farra do boi? ‘tradição cultural’. Trote em calouros? ‘tradição cultural’. Ora, sacrificar crianças para aplacar a fúria dos deuses também foi, durante milênios, uma ‘tradição cultural’. (…) Mas suspeito que, se tivessem sobrevivido até hoje, essas práticas infames teriam o apoio de incontáveis defensores, acovardados pela noção de que tudo no mundo se justifica.

Nossa espécie evoluiu consideravelmente [ok, isso eu, Vanessa, discordo, apenas uma parte dela evoluiu.] desde que saímos das cavernas, e esta evolução se mede, entre outras coisas, pela afinação da sensibilidade coletiva, muitas vezes imposta na marra. Não adianta combater o egoísmo e a insensatez com penas leves e muitas irrisórias. (…) Soltar balão não é um crime menor, não é uma bobagem que se resolva com meia dúzia de cestas básicas. Enquanto for tão simples se safar dessa, os cretinos responsáveis pela destruição de tanta beleza e de tantas vidas vão continuar soltando balões e se achando artistas perseguidos. E, sobretudo, vão continuar rindo da nossa sociedade pusilânime, cada vez mais incapaz de se defender.”

Anúncios
Posted in: Brasil, Indignação